CAHIERS: ENTRE TÉCNICA E CONCEITO - O QUE SUSTENTA UMA PEÇA?
- 27 de abr.
- 9 min de leitura
Atualizado: 9 de jul.

Conjunto Schiap-Sport, c. 1950 da exposição La Mode en Mouvement, Palais Galliera, Paris
Há algum tempo venho percebendo que estes textos não nascem apenas das minhas leituras, na verdade eles começam em lugares inesperados: Às vezes surgem diante de uma vitrine de museu. Outras vezes aparecem durante uma conversa com alunas, no trecho sublinhado de um livro, em uma aula da universidade, em uma matéria da Vogue, em um vídeo encontrado por acaso ou mesmo em uma observação feita durante uma viagem.
Raramente uma ideia nasce pronta, ela vai sendo construída aos poucos, quando diferentes referências começam a conversar entre si e talvez seja justamente isso que eu queira registrar nesta série.
Não quero registrar apenas as conclusões de uma pesquisa, mas o caminho percorrido até elas, sejam as perguntas que surgem antes das respostas, os livros que abro novamente e as anotações que faço ànos inúmeros post-its.
As conexões inesperadas entre um museu, uma aula, uma coleção, uma conversa ou um detalhe construtivo que insiste em permanecer na memória e no fundo, estes Cahiers são isso.
Não pretendem ensinar um conteúdo acabado, mas compartilhar o processo de construção de um olhar.
Porque acredito que estudar moda não significa apenas conhecer sua história ou acompanhar desfiles. Significa aprender a estabelecer relações entre diferentes campos do conhecimento e, pouco a pouco, desenvolver um repertório capaz de transformar a maneira como enxergamos uma roupa, uma coleção ou um objeto.
O texto desta semana começou exatamente assim, já que esses dias eu estava conversando com as alunas que participaram da primeira turma da Imersão em Paris, pois algumas delas se encontraram recentemente em Londres e foram juntas visitar a exposição da Elsa Schiaparelli no Victoria and Albert Museum.
E o relato que recebi me chamou atenção, pois como alunas de moulage e profissionais da moda, elas não estavam ali apenas para “ver roupas”. Elas tinham conhecimento técnico suficiente para observar o que muita gente não percebe: acabamento, construção, proporção, escolha de materiais.
E foi justamente isso que apareceu.
Mesmo diante de peças históricas e conceitualmente relevantes, o olhar delas foi direto para os detalhes. E, em alguns casos, os acabamentos não estavam à altura do que se esperava. Isso me fez pensar...
A gente costuma dizer que vai a uma exposição para ver inspiração, mas na prática, quando você desenvolve repertório, você não olha mais de forma superficial, ou seja, você analisa e desmonta a peça com o olhar, tenta entender como aquilo foi construído, por que foi feito daquela forma, qual era o contexto técnico, histórico e criativo.
Uma exposição de moda deixa de ser contemplativa e passa a ser quase um estudo de caso e quanto mais você sabe, mais exigente você se torna. E aqui não no sentido de crítica vazia, mas no sentido de leitura profunda, porque você começa a ver o que sustenta a peça, e não apenas o que aparece.
Eu fiquei digerindo essa informação durante a semana e me lembrei de uma experiência que tive aqui na Itália, algumas semanas atrás, quando visitei um museu conhecido em Nápoles, o Museo della Moda Napoli, que apresenta a história da moda italiana e também peças de criadores locais.
E, em alguns momentos, tive a mesma sensação, onde peças ricas em detalhe, com propostas interessantes de modelagem, mas que, quando observadas de perto, também deixavam a desejar no acabamento.
Não quero ser excessivamente crítica, mas estando aqui, convivendo com o cotidiano italiano, isso me chama atenção, porque os italianos, de forma geral, são extremamente cuidadosos com a aparência. Existe uma atenção real ao caimento, à escolha do tecido, à intenção por trás de cada composição.
Vestir-se, aqui, é um gesto pensado e criar um visual interessante faz parte da cultura e talvez por isso, a costura, a sartoria, não deveria ser um ponto de descuido.
E confesso que essa expectativa me causa um certo desconforto, porque mesmo estando há décadas no mundo da moda, eu ainda carregue algumas ideias quase ingênuas sobre esse universo, uma expectativa de coerência entre discurso, estética e execução.
Agora, corta para hoje, segunda-feira de manhã!
Chego em casa depois de deixar a Eugênia na escola, pego o telefone e decido ler algo em inglês para treinar. Entro no site da Vogue e abro uma matéria: Everything You Need to Know About Elsa Schiaparelli.
Em determinado momento, aparece uma frase que quem estudou moda conhece bem, a rivalidade entre Coco Chanel e Schiaparelli: Chanel dizia que Elsa era uma artista italiana que fazia roupas.
AS CONEXÕES
Na hora, várias coisas se conectaram, porque essa frase, que parece apenas uma provocação, revela uma diferença estrutural dentro da moda. Chanel vem de uma formação profundamente ligada à técnica francesa. E isso, em Paris, não é um detalhe. É o que sustenta o sistema das maisons até hoje.
A moulage francesa não é só uma técnica, ela é uma forma de pensar construção, precisão e acabamento.
Já Schiaparelli opera em outro território: Ela trabalha com conceito, com narrativa, com surrealismo. Sua moda dialoga diretamente com a arte, com nomes como Salvador Dalí, e isso muda completamente o ponto de partida da criação.
E AQUI ESTÁ O PONTO QUE ME INTERESSA
Quando a técnica não acompanha o conceito, a peça perde força.
E quando só a técnica existe, sem pensamento, a peça se torna apenas execução.
O que sustenta a alta-costura não é escolher entre técnica ou conceito.
É conseguir fazer os dois coexistirem.
E quando se tem conhecimento, percebemos quando há desequilíbrio. E é exatamente por isso que estudar moda no sentido mais amplo, muda completamente a forma como você vê o mundo.
Você deixa de consumir imagem e passa a ler estrutura. E talvez seja justamente aí que entra algo que eu tenho pensado cada vez mais, que é a importância de estudar processos e entender o que cada território tem para nos ensinar.
Voltando para a semana passada, durante uma aula de geopolítica com o professor Michele Carducci, meu orientador, onde ele contextualizava o sistema jurídico italiano, as influências da União Europeia e, principalmente, o modelo americano.
Em um momento, ele comentou algo que ficou comigo: As leis americanas foram estruturadas por alguns dos melhores profissionais do mundo. Muitos deles eram imigrantes europeus, absorvidos por grandes universidades americanas, juristas respeitados que contribuíram diretamente para a construção desse sistema.
E hoje, os Estados Unidos se tornaram uma referência global nesse campo. Ou seja, não se trata apenas de origem.
Se trata de circulação de conhecimento, de absorção, de estrutura.
Nesse contexto, não posso deixar de lembrar de Richard Sennett e de sua obra O Artífice. Ao refletir sobre o trabalho artesanal, Sennett rompe com uma separação que ainda fazemos com frequência: a de que pensar seria uma atividade intelectual e fazer apenas uma atividade manual.
Para ele, essas duas dimensões são inseparáveis. A inteligência também se manifesta nas mãos, na repetição, na experimentação e no aperfeiçoamento técnico. É justamente no processo de fazer que muitas ideias se consolidam e novos conhecimentos surgem.
Outro aspecto que sempre me chama atenção em sua obra e que cabe aqui é a forma como ele aborda a circulação dos ofícios. As técnicas artesanais nunca permaneceram isoladas em um único território. Elas viajaram com pessoas, atravessaram fronteiras, foram transformadas pelos encontros entre culturas e se fortaleceram justamente por meio dessa circulação de saberes.
Talvez seja justamente isso que me incomode quando observo uma peça cuja execução não acompanha a potência da ideia. Não porque lhe falte criatividade, mas porque conceito e técnica deixam de dialogar. A alta-costura sempre foi construída nesse encontro entre imaginação e domínio técnico, entre pensamento e matéria. Quando um desses elementos desaparece, a peça perde parte daquilo que lhe dá profundidade.
E isso voltou para mim ontem, domingo. Quando fiz um tour virtual com a professora e autora Doris Treptow, da Savannah College of Art and Design, e eles estavam no momento de preparação das coleções dos formandos e mesmo pelo celular, uma coisa me chamou atenção: O nível técnico.
Mas não só isso, sabe quando uma coleção apresenta harmonia, coerência e, ao mesmo tempo, algo interessante, algo que prende o olhar? Eu vi isso ali.
E enquanto escrevia esse texto, fiquei pensando, porque no fundo eu sempre acreditei nessa multidisciplinaridade e na troca entre territórios, acredito que a construção desses saberes não são fechados, mas que se alimentam de diferentes sistemas, diferentes formas de pensar e diferentes níveis de exigência.
Talvez seja por isso que, tanto na exposição em Londres, quanto na experiência em Nápoles, esse ruído tenha aparecido, porque quem tem repertório percebe quando há desequilíbrio e também percebe quando há excelência.
Ainda com base na obra de Sennett, onde o autor discute a figura do artífice e recupera um pensamento de Platão, ao relacionar o verbo grego poiein - fazer à origem da palavra poesia, Platão aproxima a criação artística do trabalho artesanal. Em ambos os casos, existe um mesmo compromisso com a areté, a busca contínua pela excelência. Criar, portanto, nunca significou apenas ter uma boa ideia. Significava aperfeiçoar um fazer.
"O filósofo clássico mais identificado com o ideal arcaico de Hefesto foi Platão, que também se preocupava com o seu fim. Ele foi encontrar na etimologia de “fazer”, a palavra poiein, a origem do conceito de habilidade. É também a palavra que deu origem a poesia, e no hino os poetas aparecem como artífices igualmente. Toda perícia artesanal é um trabalho voltado para a busca da qualidade; Platão formulou esse objetivo no conceito de arete, o padrão de excelência, implícito em qualquer ato: a aspiração de qualidade levará o artífice a se aperfeiçoar, a melhorar em vez de passar por cima. Mas Platão também observou que em sua época, embora “os artífices sejam poetas (...) não são chamados de poetas, têm outros nomes”.
Talvez tenha sido exatamente isso que vivi sem conseguir nomear, pois na juventude, eu acreditava que a criatividade surgia quase como um acontecimento espontâneo. Hoje percebo que ela é construída lentamente, no mesmo ritmo em que um artesão desenvolve suas mãos, um pesquisador amadurece suas perguntas ou uma biblioteca se forma ao longo de décadas.
E, já que eu estou tão atravessada por tudo isso, quero te fazer um convite: Aprofunda o teu repertório, de verdade.
Aproveita um momento da tua semana, escolhe um texto, lê com calma, extrai algumas ideias e anota em um caderno. Não precisa ser perfeito, precisa ser consistente.
Cria uma pasta visual no Pinterest, organiza referências, observa padrões.
Reflete sobre o que você está vendo.
Ou ainda, faz um gesto simples, mas poderoso: vai até a prateleira, pega um livro e dedica um tempo real a ele. Trabalha uma ideia ao longo da semana, deixa ela amadurecer.
Porque moda não se aprende no excesso de informação, ela se aprende na construção de conhecimento, e isso exige tempo, intenção e repetição, quase como um ritual.
CAHIERS: LEITURAS E LIVROS PARA COMEÇAR A SEMANA
Se você quiser aprofundar esse olhar, deixo aqui algumas leituras que dialogam diretamente com tudo isso.
Não são livros para “consumir rápido”.São livros para ler devagar, anotar, reler.
Inventando Moda | Doris Treptow
Uma leitura essencial para quem quer estruturar o processo criativo na moda de forma consistente. O livro organiza, de maneira didática e estratégica, as etapas de desenvolvimento de uma coleção, desde a pesquisa e construção de conceito até a materialização final das peças. Mais do que um guia técnico, ele evidencia algo fundamental: uma coleção só se sustenta quando existe coerência entre ideia, linguagem estética, escolha de materiais, modelagem e execução. É exatamente o tipo de obra que ajuda a transformar repertório em projeto, evitando o erro comum de desenvolver peças desconectadas entre si ou frágeis na construção. Link do livro: https://amzn.to/3Ov4bGx
Coco Chanel ed Elsa Schiaparelli. Due donne e il loro sogno | Gertrud Lehnert
O livro traça um paralelo entre duas das maiores criadoras da moda do século XX. Embora tenham vivido na mesma época, atravessado a Segunda Guerra e dialogado com grandes artistas como Salvador Dalí e Jean Cocteau, suas trajetórias e visões eram opostas. Chanel, de origem humilde, constrói uma estética baseada na simplicidade, funcionalidade e rigor. Schiaparelli, aristocrática, desenvolve uma moda mais experimental, criativa e ligada ao universo artístico. A partir dessas “vidas paralelas”, o livro revela não só o contraste entre técnica e conceito, mas também o contexto cultural e histórico que moldou a moda moderna. Infelizmente esse livro só está disponível em italiano ou alemão, que é a língua original da obra. Link do livro: https://amzn.to/4cTjwst
História Social da Moda | Daniela Calanca
Uma leitura fundamental para compreender a moda para além da estética, inserindo o vestuário dentro de uma lógica social, histórica e cultural. A autora mostra como a moda só pode existir em sociedades dinâmicas, onde há transformação, mobilidade e construção de identidade. Ao longo do livro, fica evidente que mudanças no vestir refletem disputas de poder, normas sociais e estruturas simbólicas, como a diferenciação entre gêneros ou as tentativas da Igreja de controlar os excessos na Idade Média. É uma obra que ajuda a desenvolver leitura crítica, mostrando que moda não é apenas criação, mas um sistema profundamente conectado ao seu tempo.
Link do livro: https://amzn.to/4uaDTs4
O artífice | Richard Sennett
Uma leitura essencial para compreender o artesanato como uma forma de conhecimento e não apenas como habilidade técnica. Ao longo da obra, Richard Sennett demonstra que o fazer manual está profundamente ligado ao pensamento, à experimentação e ao aperfeiçoamento contínuo, aproximando a prática artesanal da criação intelectual. Recuperando referências que vão de Hefesto, na mitologia grega, a Platão e aos mestres artesãos contemporâneos, o autor mostra que a busca pela excelência nasce da repetição, da curiosidade e do compromisso com a qualidade. Mais do que um livro sobre ofícios, O Artífice nos convida a refletir sobre como aprendemos, criamos e desenvolvemos nosso próprio repertório. É uma leitura que amplia a compreensão sobre o processo criativo e reforça a importância do tempo, da prática e da transmissão do saber-fazer — conceitos fundamentais para quem trabalha com moda, design, arquitetura ou qualquer atividade criativa.
Para mim, é um daqueles livros que transformam a maneira como enxergamos o trabalho criativo. Ele nos lembra que criar não é apenas ter boas ideias, mas desenvolver uma relação profunda entre a mente e as mãos.
Link do livro: https://link.amazon/B01m0YMXA
Um beijo, e uma ótima semana.







