CAHIERS: ENTRE TÉCNICA E CONCEITO - O QUE SUSTENTA UMA PEÇA?
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Atualizado: há 5 horas

Conjunto Schiap-Sport, c. 1950 da exposição La Mode en Mouvement, Palais Galliera, Paris
Esses dias eu estava conversando com as alunas que participaram da primeira turma da Imersão em Paris, pois algumas delas se encontraram recentemente em Londres e foram juntas visitar a exposição da Elsa Schiaparelli no Victoria and Albert Museum.
E o relato que recebi me chamou atenção, pois como alunas de moulage e profissionais da moda, elas não estavam ali apenas para “ver roupas”. Elas tinham conhecimento técnico suficiente para observar o que muita gente não percebe: acabamento, construção, proporção, escolha de materiais.
E foi justamente isso que apareceu.
Mesmo diante de peças históricas e conceitualmente relevantes, o olhar delas foi direto para os detalhes. E, em alguns casos, os acabamentos não estavam à altura do que se esperava. Isso me fez pensar...

Print do nosso grupo da Imersão
A gente costuma dizer que vai a uma exposição para ver inspiração, mas na prática, quando você desenvolve repertório, você não olha mais de forma superficial.
Você analisa e desmonta a peça com o olhar, você tenta entender como aquilo foi construído, por que foi feito daquela forma, qual era o contexto técnico, histórico e criativo.
Uma exposição de moda deixa de ser contemplativa e passa a ser quase um estudo de caso e quanto mais você sabe, mais exigente você se torna.
Não no sentido de crítica vazia, mas no sentido de leitura profunda, porque você começa a ver o que sustenta a peça, e não apenas o que aparece.
Eu fiquei digerindo essa informação durante a semana.
E me lembrei de uma experiência que tive aqui na Itália, algumas semanas atrás, quando visitei um museu conhecido em Nápoles, o Museo della Moda Napoli, que apresenta a história da moda italiana e também peças de criadores locais.
E, em alguns momentos, tive a mesma sensação.
Peças ricas em detalhe, com propostas interessantes de modelagem, mas que, quando observadas de perto, também deixavam a desejar no acabamento.
Não quero ser excessivamente crítica.
Mas estando aqui, convivendo com o cotidiano italiano, isso me chama atenção, porque os italianos, de forma geral, são extremamente cuidadosos com a aparência. Existe uma atenção real ao caimento, à escolha do tecido, à intenção por trás de cada composição.
Vestir-se, aqui, é um gesto pensado e criar um visual interessante faz parte da cultura.
Por isso, a costura, a sartoria, não deveria ser um ponto de descuido.
E confesso que isso me causa um certo desconforto.
Talvez porque, mesmo estando há décadas no mundo da moda, eu ainda carregue algumas ideias quase ingênuas sobre esse universo, uma expectativa de coerência entre discurso, estética e execução.
Agora, corta para hoje, segunda-feira de manhã!
Chego em casa depois de deixar a Eugênia na escola, pego o telefone e decido ler algo em inglês para treinar. Entro no site da Vogue e abro uma matéria: Everything You Need to Know About Elsa Schiaparelli.
Em determinado momento, aparece uma frase que quem estudou moda conhece bem, a rivalidade entre Coco Chanel e Schiaparelli: Chanel dizia que Elsa era uma artista italiana que fazia roupas.
Na hora, várias coisas se conectaram, porque essa frase, que parece apenas uma provocação, revela uma diferença estrutural dentro da moda.
Chanel vem de uma formação profundamente ligada à técnica francesa. E isso, em Paris, não é um detalhe. É o que sustenta o sistema das maisons até hoje.
A moulage francesa não é só uma técnica, ela é uma forma de pensar construção, precisão e acabamento.
Já Schiaparelli opera em outro território: Ela trabalha com conceito, com narrativa, com surrealismo. Sua moda dialoga diretamente com a arte, com nomes como Salvador Dalí, e isso muda completamente o ponto de partida da criação.
Mas aqui está o ponto que me interessa:
Quando a técnica não acompanha o conceito, a peça perde força.
E quando só a técnica existe, sem pensamento, a peça se torna apenas execução.
O que sustenta a alta-costura não é escolher entre técnica ou conceito.
É conseguir fazer os dois coexistirem.
E quando se tem conhecimento, percebemos quando há desequilíbrio. E é exatamente por isso que estudar moda no sentido mais amplo, muda completamente a forma como você vê o mundo.
Você deixa de consumir imagem e passa a ler estrutura.
E talvez seja justamente aí que entra algo que eu tenho pensado cada vez mais, que é a importância de estudar processos e entender o que cada território tem para nos ensinar.
Voltando para a semana passada, durante uma aula de geopolítica com o professor Michele Carducci, meu orientador, onde ele contextualizava o sistema jurídico italiano, as influências da União Europeia e, principalmente, o modelo americano.
Em um momento, ele comentou algo que ficou comigo: As leis americanas foram estruturadas por alguns dos melhores profissionais do mundo. Muitos deles eram imigrantes europeus, absorvidos por grandes universidades americanas, juristas respeitados que contribuíram diretamente para a construção desse sistema.
E hoje, os Estados Unidos se tornaram uma referência global nesse campo.
Ou seja, não se trata apenas de origem.
Se trata de circulação de conhecimento, de absorção, de estrutura.
E isso voltou para mim ontem, domingo.
Fiz um tour virtual com a professora e autora Doris Treptow, da Savannah College of Art and Design, e eles estavam no momento de preparação das coleções dos formandos e mesmo pelo celular, uma coisa me chamou atenção.
O nível técnico.
Mas não só isso.
Sabe quando uma coleção apresenta harmonia, coerência e, ao mesmo tempo, algo interessante, algo que prende o olhar? Eu vi isso ali.
E enquanto escrevia esse texto, fiquei pensando.
Porque, no fundo, eu sempre acreditei nisso.
Na multidisciplinaridade e na troca entre territórios.
Na construção desses saberes que não são fechados, mas que se alimenta de diferentes sistemas, diferentes formas de pensar, diferentes níveis de exigência.
Talvez seja por isso que, tanto na exposição em Londres, quanto na experiência em Nápoles, esse ruído tenha aparecido, porque quem tem repertório percebe quando há desequilíbrio e também percebe quando há excelência.
E, já que eu estou tão atravessada por tudo isso, quero te fazer um convite: Aprofunda o teu repertório, de verdade.
Aproveita um momento da tua semana, escolhe um texto, lê com calma, extrai algumas ideias e anota em um caderno. Não precisa ser perfeito, precisa ser consistente.
Cria uma pasta visual no Pinterest, organiza referências, observa padrões.
Reflete sobre o que você está vendo.
Ou ainda, faz um gesto simples, mas poderoso: vai até a prateleira, pega um livro e dedica um tempo real a ele.
Trabalha uma ideia ao longo da semana, deixa ela amadurecer.
Porque moda não se aprende no excesso de informação, ela se aprende na construção de conhecimento, e isso exige tempo, intenção e repetição, quase como um ritual.
CAHIERS: LEITURAS E LIVROS PARA COMEÇAR A SEMANA
Se você quiser aprofundar esse olhar, deixo aqui algumas leituras que dialogam diretamente com tudo isso.
Não são livros para “consumir rápido”.São livros para ler devagar, anotar, reler.
Inventando Moda | Doris Treptow
Uma leitura essencial para quem quer estruturar o processo criativo na moda de forma consistente. O livro organiza, de maneira didática e estratégica, as etapas de desenvolvimento de uma coleção, desde a pesquisa e construção de conceito até a materialização final das peças. Mais do que um guia técnico, ele evidencia algo fundamental: uma coleção só se sustenta quando existe coerência entre ideia, linguagem estética, escolha de materiais, modelagem e execução. É exatamente o tipo de obra que ajuda a transformar repertório em projeto, evitando o erro comum de desenvolver peças desconectadas entre si ou frágeis na construção. Link do livro: https://amzn.to/3Ov4bGx
Coco Chanel ed Elsa Schiaparelli. Due donne e il loro sogno | Gertrud Lehnert
O livro traça um paralelo entre duas das maiores criadoras da moda do século XX. Embora tenham vivido na mesma época, atravessado a Segunda Guerra e dialogado com grandes artistas como Salvador Dalí e Jean Cocteau, suas trajetórias e visões eram opostas. Chanel, de origem humilde, constrói uma estética baseada na simplicidade, funcionalidade e rigor. Schiaparelli, aristocrática, desenvolve uma moda mais experimental, criativa e ligada ao universo artístico. A partir dessas “vidas paralelas”, o livro revela não só o contraste entre técnica e conceito, mas também o contexto cultural e histórico que moldou a moda moderna. Infelizmente esse livro só está disponível em italiano ou alemão, que é a língua original da obra. Link do livro: https://amzn.to/4cTjwst
História Social da Moda | Daniela Calanca
Uma leitura fundamental para compreender a moda para além da estética, inserindo o vestuário dentro de uma lógica social, histórica e cultural. A autora mostra como a moda só pode existir em sociedades dinâmicas, onde há transformação, mobilidade e construção de identidade. Ao longo do livro, fica evidente que mudanças no vestir refletem disputas de poder, normas sociais e estruturas simbólicas, como a diferenciação entre gêneros ou as tentativas da Igreja de controlar os excessos na Idade Média. É uma obra que ajuda a desenvolver leitura crítica, mostrando que moda não é apenas criação, mas um sistema profundamente conectado ao seu tempo.
Link do livro: https://amzn.to/4uaDTs4
Um beijo, e uma ótima semana.







