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OMAKASE CULTURE FASHION: QUANDO A CURADORIA VOLTA AO CENTRO

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

O que um conceito inspirado no omakase japonês me fez pensar sobre moda, pesquisa e o futuro da criação de conteúdo.


Há alguns dias me deparei com um termo que ainda não conhecia: Omakase Listening.


A proposta surgiu no universo da música. E pelo que pesquisei, em vez de algoritmos sugerindo infinitas playlists baseadas no nosso histórico, a experiência parte da confiança em uma curadoria humana. Assim como no omakase japonês, em que o cliente entrega ao chef a responsabilidade pelas escolhas, aqui o ouvinte aceita ser conduzido por alguém que estudou, pesquisou e selecionou cuidadosamente cada faixa.


Confesso que, ao ler sobre isso, pensei muito menos em música do que em moda, mas pensei no momento que estamos vivendo, tanto é que fui entender como o termo vem sendo usado hoje na moda.


Durante anos, a internet nos convenceu de que mais opções significavam uma experiência melhor. Mais tendências. Mais referências. Mais vídeos. Mais listas. Mais recomendações geradas por algoritmos. Vivemos o auge de uma cultura da abundância, na qual o consumo deixou de se restringir aos objetos e passou a orientar também a maneira como nos relacionamos com o conhecimento. Acumulamos referências como acumulamos roupas: na esperança de que quantidade produzisse profundidade. Mas repertório nunca foi uma questão de acumular. Sempre foi uma questão de escolher.


Mas, paradoxalmente, nunca foi tão difícil encontrar algo realmente significativo.


Hoje temos acesso a praticamente toda a história da moda na palma da mão, eu mesma venho falando sobre isso há mais de décadas aqui na internet e ainda assim, muitos estudantes, profissionais e consumidores sentem dificuldade para construir repertório. Talvez porque repertório nunca tenha sido uma questão de quantidade. Sempre foi uma questão de seleção.


O PRIVILÉGIO DE ESCOLHER MENOS


Depois de mais de vinte anos trabalhando na indústria da moda, desenvolvendo coleções, pesquisando arquivos, visitando museus, formando profissionais e construindo uma biblioteca especializada, percebi que meu trabalho nunca foi apenas ensinar moda.


Meu trabalho sempre foi selecionar: Selecionar quais livros realmente valem a leitura.


Quais exposições ajudam a compreender um determinado período histórico.

Quais peças merecem ser observadas de perto.

Quais autores oferecem perspectivas realmente transformadoras.

Quais referências permanecem relevantes mesmo décadas depois.

Curiosamente, quanto mais estudo, menos sinto necessidade de consumir tudo.

A maturidade intelectual parece caminhar no sentido oposto ao excesso.

Ela aprende a dizer não.


A CURADORIA COMO FORMA DE CUIDADO


Talvez seja justamente isso que me encanta nos museus.

Quando entramos em uma exposição, não encontramos milhares de objetos organizados aleatoriamente. Existe uma narrativa ali... Existe uma intenção e principalmente, existe alguém que estudou profundamente aquele tema para decidir o que merece estar ali e, igualmente importante, o que ficou de fora.


A curadoria não restringe a experiência, na verdade ela amplia seu significado e dentro deste contexto, penso que na moda, vivemos algo semelhante.


Em uma época em que algoritmos conseguem sugerir milhares de produtos em segundos, o verdadeiro diferencial talvez esteja em quem consegue contextualizar essas escolhas e explicar "por que determinado vestido mudou a história" ou "por que uma modelagem continua relevante cinquenta anos depois".


Por que uma visita a um museu pode ensinar mais sobre luxo do que uma tarde inteira consumindo tendências nas redes sociais.


TALVEZ ESTE SEJA O VERDADEIRO LUXO


Costumamos associar luxo ao acesso, mas começo a acreditar que o novo luxo está muito mais próximo do discernimento. Saber o que merece nossa atenção e principalmente o que merece nosso tempo.


No meu caso com, com a minha biblioteca que hoje tem limite físico, preciso escolher o que de fato merece ocupar espaço nas prateleira, assim como no nosso guarda-roupa e na nossa formação.


Essa percepção também mudou a forma como enxergo meu próprio trabalho, já que minhas viagens deixaram há muito tempo de ser turismo, pois são pesquisa. Assim como a minha biblioteca deixou de ser apenas uma coleção de livros, e passou a ser um laboratório.


As visitas a museus deixaram de ser lazer e vivaram parte do processo de construção de conhecimento.


E como vocês que me acompanham aqui sabem: Eu não produzo conteúdo para acompanhar a velocidade da internet, prefiro construir repertório para permanecer relevante quando a velocidade passar.


UM CAMINHO PARA O FUTURO


Não acredito que algoritmos sejam inimigos da criatividade. Eles são ferramentas extraordinárias e fazem parte da forma como pesquisamos e descobrimos novos conteúdos. Mas talvez estejamos entrando em um momento em que justamente aquilo que nenhuma inteligência artificial consegue substituir ganha ainda mais valor: o olhar humano capaz de estabelecer relações, criar contexto, reconhecer nuances e fazer escolhas conscientes.


Na moda, talvez a próxima grande tendência não seja consumir mais. Seja aprender a escolher melhor.

E, quem sabe, seja exatamente isso que chamamos de curadoria.


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