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SCHIAPARELLI, ROMA E O PROCESSO CRIATIVO

  • há 5 horas
  • 7 min de leitura

La Bocca della Verità - Roma - 2025


Comecei a semana com uma provocação sobre Elsa Schiaparelli e Coco Chanel. E como acontece com alguns temas mais estruturais da moda, não se trata apenas de um interesse momentâneo. Trata-se de uma questão que insiste, que retorna, e que exige ser elaborada.


Escrever aqui no blog, nesse sentido, não é apenas compartilhar uma opinião, é também uma forma de organizar o meu pensamento, de testar hipóteses e principalmente: de construir repertório. Muitas vezes, é no próprio ato da escrita que certas relações começam a se tornar mais claras, já falava a autora do livro o Caminho do Artista, Julia Cameron.


Pois bem, no caso de Schiaparelli e Chanel o que está em jogo não são apenas duas estilistas ou duas trajetórias individuais. O que se revela, quando olhamos com mais atenção, são dois modos distintos de formação, dois contextos culturais e duas maneiras de compreender a própria função da moda. A questão é que quando se observam suas trajetórias, não se trata apenas de histórias individuais, mas de contextos culturais distintos que acabam se traduzindo em linguagem. Isso se torna ainda mais evidente quando passamos a olhar para a moda a partir do ambiente em que ela é produzida, seja em museus, exposições ou na própria observação das cidades.


De um lado, Schiaparelli, formada em um ambiente aristocrático italiano, envolvido por arte, literatura e pensamento intelectual. De outro, Chanel, cuja formação se dá na ausência, na escassez e na necessidade de construir autonomia. Esses dois pontos de partida não são apenas biográficos. eles estruturam modos distintos de conceber a moda e, principalmente, de olhar o mundo.


No Palais Galliera em Paris, a exposição dedicada a Stephen Jones destaca um de seus momentos mais icônicos: o chapéu criado em colaboração com Salvador Dalí, onde a chapelaria ultrapassa a função estética e se aproxima do território da arte surrealista - 2025


No caso de Chanel, seu entorno aparece de forma muito concreta naquilo que constrói. Quando falamos do uso do tweed, por exemplo, não estamos apenas falando de um tecido, mas de uma apropriação de códigos masculinos e utilitários. Ao trazer esse material para o guarda-roupa feminino, Chanel não está apenas inovando esteticamente, mas reorganizando o corpo da mulher dentro de uma lógica de mobilidade e liberdade. O mesmo acontece com a ausência de ornamento excessivo. A recusa a bordados pesados, joias ostensivas e estruturas rígidas revela uma intenção clara de depuração.


Aqui é importante entender didaticamente o que isso significa. Depurar, nesse contexto, não é simplificar por falta de capacidade, mas selecionar com rigor. Chanel elimina o que considera excesso para construir uma estética baseada em funcionalidade, sobriedade e permanência. A repetição de elementos como a camélia, por exemplo, não é decorativa no sentido superficial. Ela funciona como um signo, um elemento de identidade que se mantém ao longo do tempo e reforça a coerência do seu universo criativo.


Esse tipo de construção não surge isoladamente: ele dialoga com um contexto mais amplo, com modos de vida e com uma certa ideia de modernidade que também pode ser percebida na arquitetura, nos interiores e na forma como o corpo passa a se mover na cidade no início do século XX. Existe uma transformação social acontecendo, e Chanel responde a essa transformação com uma proposta estética que organiza e racionaliza o vestir.


Já Schiaparelli se insere em outro circuito. Sua aproximação com a moda se dá em diálogo com figuras como Paul Poiret e, sobretudo, com o ambiente artístico ligado ao surrealismo. Aqui, é importante entender o que significa esse contexto. Não se trata apenas de conviver com artistas, mas de estar inserida em um ambiente onde a arte é discutida, questionada e experimentada constantemente.


Na exposição Fashioning Wonder, no Museum at FIT, as joias de Elsa Schiaparelli mostram como o fundo do mar é transformado em linguagem, onde o orgânico deixa de ser referência e passa a ser construção simbólica - 2025


Festas, vernissages, encontros intelectuais e trocas culturais fazem parte de um cotidiano em que a criação não é orientada apenas por função, mas por expressão. Nesse contexto, a moda deixa de ser apenas construção e passa a operar como linguagem e isso muda completamente a forma de criar.


Didaticamente, podemos observar três características importantes no trabalho de Schiaparelli que derivam diretamente desse ambiente:


  • A primeira é o uso do humor, já que diferente de uma moda que busca elegância clássica, Schiaparelli introduz elementos inesperados, irônicos, que deslocam o olhar.


  • A segunda é o exagero. Proporções ampliadas, volumes inesperados e detalhes que chamam atenção não são erros de equilíbrio, mas escolhas conscientes.


  • A terceira é a ruptura. Suas peças frequentemente desafiam a lógica tradicional do vestuário, aproximando-se mais de uma obra de arte do que de um objeto funcional.


O que se observa, portanto, não é apenas uma diferença de estilo entre Chanel e Schiaparelli, mas uma diferença na origem cultural do olhar. Chanel organiza, estrutura, racionaliza. Schiaparelli tensiona, provoca, expande. Ambas, no entanto, partem de um mesmo princípio: a criação não emerge do vazio. Ela é sempre resultado de um repertório construído ao longo do tempo.


Castello Sant'Angelo em Roma, que nasceu como o mausoléu do imperador Adriano, construído entre 135 e 139 d.C.

A Sala Paolina se destaca pelo ciclo de afrescos maneiristas de Perino del Vaga, que retratam Alexandre, o Grande e São Paulo, criando paralelos diretos com a autoridade papal. - 2025


Ao deslocar esse olhar para a Itália, essa relação entre cultura e criação se torna ainda mais evidente. Conhecendo o contexto histórico de Paris e de Roma no início do século XX, ou ainda quando ambas eram jovens, podemos traçar alguns paralelos importantes. A Itália já era um território profundamente marcado por simbolismos, pela presença constante da arte e pela herança de grandes pensadores e artistas como Gian Lorenzo Bernini e Leonardo da Vinci. Elsa Schiaparelli nasce dentro desse contexto, rodeada de beleza, de arte e de referências que não eram exceção, mas parte do cotidiano.


Fontana dei Quattro Fiumi, projetada por Gian Lorenzo Bernini em 1651, é uma das obras mais emblemáticas do Barroco romano. Localizada na Piazza Navona, a fonte representa quatro grandes rios dos continentes conhecidos à época, o Nilo, o Ganges, o Danúbio e o Rio da Prata, simbolizando o alcance universal do poder da Igreja e da Roma papal - 2025


Roma, nesse sentido, não é apenas uma cidade, mas um sistema de formação de olhar. E isso pode ser observado de forma bastante concreta, já que Roma ensina, antes de tudo, o valor do excesso e do drama.


A cidade é marcada por uma estética intensa, visível nas esculturas barrocas, nas igrejas carregadas de ornamento e na forma como o espaço é construído para provocar emoção. Ao observar uma escultura de Bernini, por exemplo, percebe-se movimento, tensão e teatralidade. Esse tipo de construção visual não busca neutralidade, mas impacto.


Esse mesmo princípio pode ser identificado no trabalho de Schiaparelli, que frequentemente utiliza o exagero e a provocação como estratégia criativa.


Panteão, construído no século II d.C., o edifício atravessa o tempo entre deuses pagãos e a liturgia cristã, sem perder sua força original. A cúpula, ainda hoje a maior em concreto não armado do mundo, sustenta não só o espaço, mas a própria ideia de eternidade - 2025


Outro aspecto fundamental é o simbolismo. Em Roma, praticamente tudo carrega significado, seja nos elementos arquitetônicos, escultóricos e decorativos estão associados a narrativas religiosas, políticas ou mitológicas. Essa leitura simbólica do mundo forma um olhar treinado para interpretar camadas de sentido. Quando Schiaparelli se aproxima do surrealismo, ela passa a operar exatamente nesse campo, transformando objetos e roupas em portadores de significado, muitas vezes de forma não literal, mas sugestiva.


Ao fundo, o Arco de Constantino surge quase como uma imagem construída, lembrando que, aqui, cada abertura revela mais do que uma vista, revela camadas de poder, memória e permanência. Em Roma, até o olhar é arquitetado.


A relação entre arte e vida também é central. Em Roma, a arte não está restrita a espaços institucionais. Ela está integrada ao cotidiano, presente nas ruas, nas igrejas, nas fachadas e nos interiores. Esse contato contínuo cria uma naturalização da arte como parte da vida. No caso de Schiaparelli, isso se manifesta na forma como ela não separa moda e arte, mas transita entre os dois campos com liberdade.


Na Sant'Agnese in Agone, o Barroco não busca equilíbrio, busca impacto. Entre mármores, colunas e relevos, a arquitetura conduz o olhar para o alto, criando uma experiência que é ao mesmo tempo estética e espiritual. Nada aqui é neutro. Tudo é pensado para emocionar, envolver e afirmar presença, a fé também é construída como espetáculo.


Por fim, Roma ensina o contraste. A convivência entre ruínas antigas e construções monumentais, entre passado e presente, cria uma percepção estética complexa e não linear. Esse tipo de leitura rompe com a ideia de harmonia clássica e abre espaço para combinações inesperadas.


Esse deslocamento também pode ser observado no trabalho de Schiaparelli, que frequentemente desafia expectativas e propõe novas formas de ver o vestuário.


Assim, mais do que influências diretas, o que se pode observar é a formação de um repertório. O trabalho de Schiaparelli não nasce do acaso, mas de um olhar construído em um ambiente cultural denso, visualmente rico e intelectualmente ativo, que, ao ser deslocado para Paris, encontra no surrealismo uma forma de expressão.


A Fontana di Trevi foi projetada por Nicola Salvi e traduz o espírito barroco em movimento, excesso e teatralidade. As esculturas emergem da pedra como se estivessem vivas, dissolvendo o limite entre arquitetura e natureza - 2025


No fim, Roma não explica uma peça específica, mas ajuda a entender a origem de um pensamento. E talvez seja esse o ponto mais relevante para pensar a moda hoje. Em um cenário marcado por algoritmos repetitivos e referências cada vez mais aceleradas, a questão deixa de ser apenas o que se produz e passa a ser o que sustenta essa produção.


Porque, no limite, toda criação é atravessada por um repertório. E é esse repertório, visível ou não, que determina a qualidade do que se constrói.


Espero que esse conteúdo tenha inspirado você de alguma forma. Continuaremos essa conversa com um olhar mais técnico sobre o processo criativo! Te espero.

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