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CAHIERS: A MORTE DOS DETALHES NA MODA

  • 19 de ago. de 2025
  • 8 min de leitura

Este não é um texto sobre nostalgia. É uma anotação de pesquisa que começou em Paris e continua aberta, assim como os outros textos dessa categoria chamada cuidadosamente de "Cahiers".


Há algum tempo venho percebendo uma mudança silenciosa na maneira como observo roupas. Já não sou atraída apenas pela silhueta ou pela estética de uma coleção. O que prende meu olhar são os pequenos gestos de construção: um sistema de fechamento, a forma como um bolso foi pensado, a solução encontrada para uma costura, um acabamento quase invisível.


Talvez seja consequência de tantos anos ensinando moulage e desenvolvimento de coleção. Talvez seja apenas um efeito natural de quem passa boa parte do tempo pesquisando moda. Mas, cada vez mais, tenho a sensação de que os detalhes contam histórias que as fotografias nem sempre conseguem revelar.


Recentemente, durante uma visita ao Palais Galliera, em Paris, aconteceu exatamente isso, entre tantas peças expostas, uma roupa de esqui do início do século XX me fez parar por vários minutos diante da vitrine.


Não era uma peça exuberante e o que chamou minha atenção foi um sistema de abotoamento extremamente inteligente. Ao mesmo tempo funcional e elegante. Fiquei olhando aquele pequeno mecanismo tentando entender por que ele me impressionava tanto.



Na volta para casa, anotei no meu caderno:


Naquele botão existia muito mais do que uma solução técnica.

Havia tempo e intenção. Havia alguém tentando resolver um problema da melhor maneira possível. Ali nada parecia descartável e cada elemento carregava uma ideia de permanência, quase um pacto silencioso entre quem projetou aquela roupa e quem um dia a vestiria.


Foi impossível não pensar na tecnologia. Curiosamente, esse foi justamente o tema da minha pesquisa de mestrado: Moda e tecnologia. Lembro que, logo no início da pesquisa, meu orientador me indicou dois livros que mudaram completamente a maneira como eu compreendia essa palavra: The Nature of Technology, de Brian Arthur, e A Evolução da Tecnologia, de George Basalla.


Até então, eu associava tecnologia quase exclusivamente às máquinas, aos equipamentos ou às inovações digitais. Essas leituras ampliaram profundamente essa compreensão e passei a entender tecnologia como qualquer solução criada pelo ser humano para responder a um problema. Sob essa perspectiva, uma invenção não precisa ser eletrônica para ser tecnológica.


Basalla utiliza exemplos aparentemente simples para demonstrar isso. O arame farpado, por exemplo, foi uma tecnologia revolucionária em seu tempo. Da mesma forma, o zíper Éclair também representou uma inovação que transformou a forma de vestir e ampliou as possibilidades construtivas do vestuário.


Talvez seja exatamente isso que eu tenha visto naquela roupa de esqui, aquele sistema de abotoamento não era apenas um detalhe elegante. Era uma tecnologia e também uma solução criativa, desenvolvida para responder a uma necessidade específica, resultado de observação, experimentação e muito tempo de aperfeiçoamento.


PARA REFLETIR:

Talvez existam tecnologias que desaparecem não porque deixaram de funcionar, mas porque deixamos de valorizar o tempo necessário para concebê-las.


Talvez a morte dos detalhes também seja, em alguma medida, a morte de certas tecnologias silenciosas da moda?


CONEXÃO

Dias depois, enquanto navegava pelo Instagram, encontrei um reels do colecionador Elliot Dupray mostrando detalhes de peças de Alexander McQueen pertencentes ao seu acervo.



O vídeo chamou minha atenção justamente porque falava daquilo que eu ainda tentava organizar nas minhas anotações: a perda dos detalhes.


Ao apresentar algumas peças, Elliot comentava como determinadas soluções construtivas, acabamentos e elementos de design praticamente desapareceram ao longo dos anos, especialmente após a incorporação de muitas casas de moda por grandes conglomerados. Imediatamente lembrei de um livro que sempre recomendo por aqui: Dana Thomas

Gods and Kings: The Rise and Fall of Alexander McQueen and John Galliano.


PARA RELER

No livro, a autora descreve muito bem os períodos de transição vividos por diversos diretores criativos. Em vários momentos, a mudança de gestão parece coincidir com uma transformação mais profunda: a substituição de uma linguagem autoral por decisões cada vez mais orientadas pelo mercado. Fiquei pensando se a morte dos detalhes não seria também um reflexo desse processo.


OUTRA CONEXÃO

Mas o que vemos hoje, em boa parte da indústria, é a necessidade de adequar-se a um mercado que transformou a moda em pura mercantilização. Como bem analisa Gilles Lipovetsky em O Império do Efêmero, a moda deixou de ser apenas um sistema de distinção social para tornar-se um motor incessante de consumo, sustentado pelo ritmo acelerado das coleções e pela lógica da obsolescência. O detalhe, nesse cenário, não encontra lugar: ele é caro, exige tempo, demanda mão de obra especializada. E tempo, sabemos, é o recurso mais escasso de nossa era.


Walter Benjamin, no Livro das Passagens, (escrevi sobre elas nesse post aqui) já pressentia essa tensão entre aura e reprodutibilidade. O detalhe minucioso, artesanal, carregado de tempo, é parte daquilo que confere aura a uma peça de moda.


Ao perdermos o detalhe, perdemos também essa aura, substituída por imagens velozes que se sucedem em nossos feeds digitais. Se o século XIX se encantava com as passagens de ferro e vidro de Paris, onde a mercadoria se apresentava como espetáculo, nós hoje desfilamos por passagens virtuais onde a roupa já nasce destinada ao descarte.


Roland Barthes, em O Sistema da Moda, nos lembra que a moda é antes de tudo linguagem. O detalhe é uma espécie de fonema dessa linguagem, um sinal pequeno, mas carregado de significado. Quando uma casa de moda borda à mão uma flor em seda ou cria um fecho invisível que se encaixa com perfeição, não está apenas resolvendo uma função técnica: está escrevendo uma frase no tecido, comunicando uma intenção cultural. A perda do detalhe equivale, nesse sentido, a uma perda de vocabulário ficamos com uma moda mais pobre, de frases curtas e repetitivas.


Aqui há uma analogia que gosto de fazer com a alimentação: O surgimento do fast food não eliminou a gastronomia, mas alterou profundamente nossa relação com a comida. Passamos a consumir refeições cada vez mais rápidas, padronizadas e produzidas em larga escala. Elas cumprem sua função imediata, mas, muitas vezes, oferecem pouco em termos de qualidade nutricional, diversidade de ingredientes ou experiência.


Fico pensando se algo semelhante não aconteceu com a moda.


Assim como existem alimentos nutricionalmente pobres, talvez também existam criações culturalmente pobres. Peças concebidas apenas para responder à velocidade do mercado, sem pesquisa, sem experimentação e sem o tempo necessário para amadurecer uma ideia.


Isso não significa que toda roupa precise ser uma obra de arte ou pertencer à alta-costura. A questão talvez seja outra.

Quando o tempo deixa de fazer parte do processo criativo, o detalhe desaparece. E, com ele, desaparecem também muitas das tecnologias silenciosas, das soluções construtivas e das narrativas que transformam uma roupa em um objeto de cultura.


CONTINUANDO...

Caroline Evans, em Fashion at the Edge, vai além e mostra como o detalhe pode ser subversivo. Em McQueen, por exemplo, os acabamentos rasgados, as costuras expostas, os bordados perturbadores não são apenas ornamentos: são metáforas visuais de violência, beleza e morte. O detalhe, nesse caso, é também pensamento crítico, capaz de tensionar o espectador e transformar a passarela em palco de reflexão.


Valerie Steele, em seus inúmeros trabalhos de curadoria e crítica, insiste no papel dos museus como guardiões desses detalhes. Não apenas os grandes nomes, mas também roupas comuns, de esportes, de trabalho, carregam invenções discretas que nos contam histórias sobre tecnologia, gênero, corpo e sociedade. Ao caminhar pelos corredores de exposições em Paris, senti exatamente isso: os detalhes não são apenas belas soluções estéticas; eles são arquivos vivos de pensamento, testemunhos de um tempo em que a moda não era descartável, mas inscrita em uma história maior.


O vídeo do Instagram, portanto, toca em algo que é mais do que nostalgia. A morte do detalhe não é apenas a perda de um “capricho” artesanal, mas um sintoma de como a lógica industrial e financeira se impôs sobre a moda, reduzindo seu poder de memória e sua capacidade de criar aura. É a mesma lógica que transforma a alta-costura em estratégia de marketing para conglomerados e que vende a ilusão de autenticidade enquanto acelera o consumo.


Ainda assim, resistências existem. Em ateliers independentes, em movimentos de slow fashion, na prática de designers que insistem no detalhe como ato político, reencontramos o valor do gesto minucioso. Como Benjamin nos lembraria, o flâneur é aquele que passeia devagar, que olha com atenção para aquilo que a multidão apressada não percebe. Talvez seja esse o convite da moda hoje: resistir ao fluxo acelerado e reaprender a olhar para o detalhe, não como luxo obsoleto, mas como forma de pensamento crítico e de memória cultural.


Paris, com suas bibliotecas e museus, me ensinou isso mais uma vez. Entre uma roupa de esqui com botões engenhosos e um vestido de McQueen bordado à exaustão, descobri que o detalhe é mais do que estética: é um lembrete de que a moda só se mantém relevante quando é capaz de cultivar memória e emoção.


E aqui cabe a pergunta que nos resta: conseguiremos resgatar o detalhe em uma era que parece querer apagá-lo?


Enquanto isso, sigo flanando, seja por livros, arquivos, exposições, passagens reais e digitais. Porque, no fundo, é no detalhe que a moda floresce como arte, resistência e memória.


CONEXÕES PARA DESENVOLVER NO FUTURO

Sobre Walter Benjamin, como mencionei o Livro das Passagens, onde Benjamin escreve sobre aura.

Será que o detalhe não faz parte justamente dessa experiência?

Talvez aquilo que percebemos como aura esteja relacionado ao tempo condensado em uma peça?


Roland Barthes.

Em O Sistema da Moda, Barthes propõe que a moda funciona como uma linguagem.

E se o detalhe for uma das menores unidades dessa linguagem?

Talvez ele funcione como uma palavra capaz de alterar completamente o significado de uma roupa.


Caroline Evans.

Em Fashion at the Edge, McQueen aparece como um exemplo de como o detalhe também pode ser discurso.

Nas costuras, rasgados, bordados, acabamentos. Nada ali é apenas ornamentação. Tudo é reflexo do que ele viveu e sentia.


Valerie Steele: Voltar aos textos sobre museus.

Enquanto caminhava pelo Palais Galliera, pensei que museus não preservam apenas roupas.

Eles preservam maneiras de pensar e curadoria de quem organizou, estudou e montou determinada exposição.

Talvez seja justamente isso que tanto me fascina nesses espaços.


AGORA UMA PERGUNTA

A perda dos detalhes é apenas uma consequência da industrialização?

Ou ela revela uma mudança muito mais profunda na maneira como produzimos, consumimos e entendemos a moda?


E uma provocação: Talvez o verdadeiro luxo nunca tenha sido apenas matéria-prima e talvez sempre tenha sido tempo, seja o tempo para pensar, para testar novas possibilidades, tempo para construir, para bordar, para errar e principalemente: Tempo para recomeçar.



PARA PESQUISAR

□ Rever o reels do Elliot Dupray.

□ Reler Dana Thomas.

□ Voltar ao capítulo de Lipovetsky sobre aceleração da moda.

□ Revisitar Benjamin pensando na relação entre aura e construção.

□ Procurar mais exemplos de sistemas de fechamento em roupas esportivas do início do século XX.

□ Observar esses detalhes nas próximas visitas a museus.


Enquanto escrevo estas linhas, percebo que este texto talvez nunca tenha sido sobre um botão. Tampouco sobre Alexander McQueen. Talvez ele seja apenas uma tentativa de compreender quando deixamos de dedicar tempo aos detalhes. Ou, quem sabe, de registrar uma inquietação que começou diante de uma vitrine no Palais Galliera e continua crescendo a cada livro, museu ou peça antiga que encontro pelo caminho.


Porque, no fundo, começo a suspeitar que os detalhes nunca foram apenas detalhes, eles são pequenas tecnologias.

São formas de pensamento e vestígios de uma época em que o tempo fazia parte do próprio processo criativo.

Talvez seja justamente neles que a moda continue preservando sua capacidade de emocionar, resistir e construir memória.



LIVROS MENCIONADOS


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